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O que levou o Coringa a se matar

Em novembro de 1989, uma semana depois do primeiro turno da eleição em que os brasileiros voltaram a escolher seu presidente com o fim da ditadura militar, Leonel Brizola (PDT) convocou a militância do seu partido para uma reunião no Riocentro, em Jacarepaguá, à época, o maior centro de convenções do país.

Brizola ficou fora do segundo turno por uma diferença ínfima de votos válidos: teve 16,04%, e Lula, 16,69%. Fernando Collor (PRN) teve quase o dobro – 32,47%. A poucas horas da reunião, Brizola hesitava sobre o que fazer: apoiar Lula ou não apoiar ninguém, liberando os militantes para votar livremente?

À saída do prédio onde morava na Avenida Atlântica, no Rio, acompanhado por um grupo de dirigentes do PDT, Brizola foi abordado por uma vizinha, sua eleitora, que lhe disse de bate-pronto: “É, governador, vamos ter que engolir o sapo barbudo”. No Riocentro, o clima era escancaradamente a favor do voto em Lula.

Depois de ouvir mais de uma dezena de discursos, sem que dissesse uma só palavra capaz de antecipar sua decisão, Brizola finalmente falou. E começou assim:

“É, meus companheiros, vamos ter mesmo que engolir o sapo barbudo”.

Foi aplaudido de pé. De bom gosto, a multidão já engolira Lula. Era Brizola que hesitava em fazê-lo.

É de praxe que chefes políticos e candidatos derrotados se posicionem em relação àqueles que disputarão o segundo turno. A deputada federal Tabata Amaral (PSB) sequer esperou o fim da apuração dos votos em São Paulo para anunciar seu apoio a Guilherme Boulos (PSOL), que enfrentará Ricardo Nunes (MDB).

Mas se eles pensam de fato que conduzem a manada, é a manada que os conduz. As pesquisas indicam que dois terços dos votos de Tabata migrarão para Boulos. E que Nunes abiscoitará o terço restante. Mesmo que quisesse, Tabata não teria muito o que fazer para alterar essa realidade – como Brizola não teve no passado.

Os políticos subestimam os eleitores. Querem acreditar que eles são bobos. Se de verdade lhes dessem ouvidos, saberiam que os eleitores são movidos à emoção, mas fazem escolhas bastante racionais. Eu voto naquele candidato porque ele melhorou a minha vida. Eu voto naquele outro porque ele pensa como eu penso.

Boulos terá pela frente o maior desafio de sua vida. Por pouco, e graças a Pablo Marçal (PRTB) que tomou uma dose de cicuta ao armar a farsa que se desmanchou em poucas horas, não ficou de fora do segundo turno. O eleitor de Marçal não vota em Boulos – votará em Nunes, que não nunca o satisfez inteiramente.

Como então Boulos poderá se eleger? Com a ajuda dos eleitores que votaram em Tabata, e se roubar votos de Nunes entre os eleitores mais pobres. Boulos está no segundo turno porque os ricos e a classe média basicamente votaram nele. Seu tempo de propaganda eleitoral na tv e no rádio será igual ao de Nunes.

Mas a máquina do Estado e da prefeitura continuará com Nunes, e cada vez mais ativa. Bolsonaro entrará de vez na campanha de Nunes para dizer depois, caso ele se eleja, que foi um dos pais da vitória. Um embuste! Nunes não precisa mais de Bolsonaro para derrotar Boulos. Tarcísio de Freitas estará ao seu lado.

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